A tese do doutor Toni Reis

toni reis pensando

08/01/2016

Texto publicado na edição impressa de 08 de janeiro de 2016

Os que conhecem o ativista Toni Reis apenas de fotos costumam achá-lo um tipo que mete medo. Seu semblante sugere que está prestes a vomitar uma cartilha de direitos humanos, a um simples deslize do interlocutor. A calvície avançada, os olhos morteiros e as camisas comportadas, de punho, lhe conferem um layout clerical – como se fosse um estranho no cercadinho pelo qual transita de patins, o movimento LGBT.
Mas que nada. Dois minutos de conversa bastam para diluir como um efervescente o engodo das primeiras impressões. O paranaense Toni é divertido pacas, desses que pode matar de tanto rir. Não fosse quem é – o “pai” de uma dezena de ONGs, das mais diversas cores e matizes, para citar aqui seu currículo mínimo –, ganharia a vida fácil-fácil pontificando stand ups. Se lhe faltasse piada, era só contar seus apupos com Silas Malafaia (“quatro, para ser bem preciso”). Chega mesmo a ser politicamente incorreto, informação cujas provas serão aqui sonegadas, de modo a evitar que os ofendidos o levem ao tribunal da Inquisição on-line, o Facebook.
Em uma das entrevistas à Gazeta do Povo – cinco anos atrás –, fez brotar cascatas de gargalhadas, seguidas de cãibras, ao contar as vãs tentativas da mãe para curá-lo da homossexualidade, manifesta tão logo lhe despontaram os primeiros fios de bigode. Além de uma doença gravíssima, aquilo era um pecado que bradava aos céus da pequena Coronel Vivida, no Sudoeste do estado, sua terra natal. Tentou-se de tudo para salvá-lo – no melhor estilo pastelão.

Antes de se tornar um militante festejado, o “Toni Reis do Grupo Dignidade” é um acadêmico

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O padre mandou que rezasse uma novena. Se lhe viesse a tentação, que voltasse ao início, sucessivamente, até vencer o desejo pela repetição de refrões e ave-marias. Virou uma liturgia perpétua. Levaram-no ao terreiro. Um pai-de-santo o assustou, dizendo que estava possuído por uma pomba-gira de duas cabeças, divindade de fina plumagem. O pastor, por fim, anunciou na assembleia que naquele dia curaria epilépticos, gagos e “aquele moço ali, que tem um problema que não posso dizer qual é”.
Quem mais lhe adiantou o expediente foi um médico – Antônio Freire, merecedor da comenda LGBT do Itamaraty, caso existisse. Deu-lhe alta, até porque nunca esteve doente. Não fez afagos. Avisou ao guri que enfrentaria os infernos. Receitou que se defendesse dos tiranos estudando – o máximo que pudesse. Seria seu troco. Obedeceu. Antes de se tornar um militante festejado em tudo que é canto do país, o “Toni Reis do Grupo Dignidade” é um acadêmico, cujo Lattes não deve nada a ninguém. Até a Unesco o reconhece.
Formado em Letras e mestre em Sexualidade, Toni Reis editou dezenas de livros que servem de pasto para quem atua no movimento social. Seu doutorado rendeu um exemplar volumoso, lançado em 2015 pela Editora Appris. Chama-se Homofobia no ambiente educacional. Não nasceu de nenhuma piada de salão, mas de uma cena experimentada por milhares de meninos, todos os dias, no recreio ou na hora da saída, quando uma gleba de lambões uniformizados faz coro para gritar “bicha, bicha, bicha”. Nem o Chacrinha conseguia ser tão cruel.
“Fiz essa pesquisa para ajudar a erradicar um preconceito – para que ninguém passe pelo que passei”, confidenciou, num dos lançamentos do livro. Por um minuto, deu folga ao seu lado líder de fanfarra para, sem disfarces, se entristecer. Depois seguiu distribuindo graças, no atacado. Alheio às sequências do datashow, mesclou citações a Abramovay, Bourdieu, Foucault e Kinsey à narração de episódios domésticos com os filhos Alyson, Jéssica e Filipe, cuja criação divide com o britânico David Harrad. Doutor Toni Reis anda bobo com as crianças. Por esses dias, de férias em Camboriú, produz um artigo para apresentar no exterior, ao mesmo tempo em que ajuda Alyson a se aviar com seus próprios escritos. Uma bala para quem adivinhar de qual dos dois assuntos ele fala com mais sujeitos, verbos e predicados.
Homofobia no ambiente educacional já levou Toni Reis à Colômbia e, em 2016, deve ser apresentado em congresso na França. Causa impressão. Para produzi-lo, o pesquisador se inseriu em quatro escolas públicas – duas estaduais e duas municipais – para entrevistar professores. “Cheguei a chorar diante de tanto desconhecimento”, lembra, ao perceber que uma parcela dos que ouviu não sabia, digamos, o que fazer diante de uma marcha surda contra os maricas. Sabe-se – começa na escolha do time do futebol, termina mal.
Há no magistério quem tome esse assunto por uma dengue – acha que prolifera. Que vai fazer as pessoas subirem pelas paredes. Que vai levar uma surra de pais ensandecidos. Muitos preferem o senso comum. A ação dos educadores vai até onde a vista alcança. Diz Toni: “A escola não quer mais esse problema. Entrevistei um professor, com mais de 35 anos de profissão, que disse não ter de discutir a questão. Para mim isso tem nome – silenciamento. Para avançar, a gente tem de se livrar de alguns esqueletos…”
Rende arranca-rabo. Pencas rejeitam o termo homofobia, tomando-o como mais um melindre da geração mimimi. Outras instâncias defendem que “isso lá é coisa para se falar na escola?” – e dá-lhe passar um mata-borrão. O fato é que em algum momento do ano letivo um menino ou menina vai pedir um aparte com o professor de Biologia, ou o de Educação Física, ou o de Artes e Literatura, para contar um segredo. Diante dele estará um pequeno estrangeiro, no momento mais solitário de sua viagem – ainda que mal a tenha iniciado. Fonte: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/colunistas/jose-carlos-fernandes/a-tese-do-doutor-toni-reis-91ocv4nrxsf1ym6tnp64icf1b

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