A comunidade LGBT no foco da discussão

“Todo debate acrescenta conhecimento, gera ações e cria iniciativas”. É com este propósito que o professor Toni Reis ministra uma palestra durante a segunda edição do SIM – Semana da Diversidade Sexual – que acontecerá em Araçatuba. Entre os temas abordados está o movimento LGBT no Brasil, abordando seus avanços e desafios. Segundo Toni, a violência contra a comunidade LGBT pode ser combatida através da denúncias, processos judiciais e repressão, mas principalmente, através da educação para o respeito à diversidade humana.
Mesclando relatos pessoais e apresentando dados e informações, a ênfase do encontro serão questões como a homofobia, transfobia e violência. Toni Reis é graduado em Letras, especialista em Sexualidade Humana, mestre em Filosofia e doutor em Educação. É secretário de Educação da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) e Diretor Executivo do Grupo Dignidade.
Em entrevista a EOnline, o professor compartilha seus conhecimentos sobre a comunidade LGBT, destacando o cenário político que nos encontramos atualmente. Ele também conta sobre como aconteceu o processo de adoção de seus três filhos.

EOnline: Quando começou a estudar a temática LGBT?
Toni Reis: Desde os 14 anos quando me assumi gay, comecei a ler a respeito. Sempre procurei me aprofundar no tema. No curso de letras, reuníamos informalmente em um pequeno grupo de pessoas para discutir o tema. Depois de formado, tive a oportunidade de morar quatro anos na Europa. De volta ao Brasil, em 1992 fundamos o Grupo Dignidade, o primeiro grupo paranaense LGBT. Fiz especialização em sexualidade humana e no mestrado me concentrei em ética e sexualidade. No doutorado focalizei na questão da homofobia e transfobia na educação e agora estou continuando meus estudos na mesma área no pós-doutorado. O que me motivou foi o sofrimento que passei dos 14 aos 21 anos de idade. Fui tratado como doente, pecador e “criminoso”, por não ser hetero. Eu tenho lutado pelos direitos da população LGBT para que outras pessoas não passem pelo que eu passei só por causa de uma orientação sexual diferente da heteronorma.

EOnline: Como o movimento LGBT está sendo desenvolvido no Brasil? Quais os pontos positivos? E quais os negativos?
Toni Reis: Em 1992 havia em torno 15 grupos LGBT em todo o Brasil. Hoje há mais de 400. Ou seja, houve um desenvolvimento relativamente rápido. Naquela época, não havia paradas LGBT, hoje há em torno de 250 eventos de visibilidade dentro da temática. Não existiam políticas públicas e nem um canal de diálogo com o governo. Hoje tem. Outro ponto positivo é que com o advento das mídias sociais, houve uma diversificação da militância, o que é positivo. O principal ponto negativo é o avanço concomitante do fundamentalismo religioso e a forma como trata as pessoas LGBT.

EOnline: Quais os desafios ainda precisam ser enfrentados pelo movimento?
Toni Reis: Os principais desafios são a apresentação de aprovação no Congresso Nacional de leis que promovam a proteção jurídica da população LGBT, em especial a criminalização da homofobia em pé de igualdade com o racismo, políticas públicas afirmativas no Executivo, bem como decisões favoráveis à cidadania das pessoas LGBT no Judiciário. A minha sugestão para este enfrentamento é muito trabalho para as pessoas LGBT, ampliando alianças com vários setores da sociedade. A união faz a força.

EOnline: A homofobia, transfobia e o preconceito ainda são muito frequentes em nossa sociedade. Por que você acredita que as pessoas utilizam a violência para resolver estas situações?
Toni Reis: Há várias pesquisas que demonstram a intolerância relativa à diversidade sexual. Por exemplo, a pesquisa “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar” (2009) mostrou que 87,3% dos/das entrevistados/as consideram que têm atitudes preconceituosas em relação à orientação sexual dos outros. A pesquisa “Juventudes e Sexualidade” (2004) mostrou que 40% dos estudantes masculinos não gostariam de estudar na mesma sala de aula com um gay. De atitudes preconceituosas precisa apenas um pequeno passo até chegar à discriminação e à violência para atacar aquilo que é diferente do convencionalmente aceito. A violência sempre existiu, só que agora ela está mais explícita. Antes as pessoas ficavam caladas, hoje muitas denunciam. A violência pode ser combatida através da denúncia, processos judiciais, repressão e principalmente, através da educação para o respeito à diversidade humana.

EOnline: Como os políticos e autoridades tem tratado o movimento LGBT? Faltam políticas públicas nesta área?
Toni Reis: Em geral, nós temos conquistado muitos direitos, mas ainda há muito preconceito por parte de setores fundamentalistas ligados à igrejas que não têm conhecimento a respeito da diversidade sexual e que se utilizam da nossa vulnerabilidade para se promoverem com distorções, prejulgamentos e ofensas. Creio que faltam políticas públicas mais efetivas de promoção do respeito a todos e todas, com ênfase nas pessoas LGBT, mulheres, negros e negras, população de rua, indígenas, entre outras minorias sociológicas.

EOnline: Atualmente você é pai de três filhos. Como foi o processo de adoção deles? Ainda é um processo muito complicado?
Toni Reis: O processo de adoção foi bastante complicado, não a adoção e convivência com os filhos em si, mas os trâmites legais e burocráticos. Demos entrada em 2005 para adoção conjunta e só conseguimos adotar o primeiro filho em 2011/2012. Tivemos que ir até o Supremo Tribunal Federal (STF) para ter o direito de adoção garantido. Do início ao fim, levou 10 anos desde o pedido de qualificação para adoção em 2005 até a decisão final do STF em 2015. Graças ao reconhecimento da união estável homoafetiva em 2011 e graças a uma juíza sensibilizada em outra comarca que não a comarca em que iniciamos o processo, conseguimos adotar sem ter que aguardar a decisão final do STF.

EOnline: Como foi a reação dos seus filhos ao serem adotados?
Toni Reis: Todos ficaram felizes para terem novamente uma família, depois de terem sido separados de suas famílias biológicas e passarem por abrigos e famílias acolhedoras. O primeiro filho adquiriu vários preconceitos nos abrigos pelo qual passou, inclusive contra homossexuais. Então, precisou um período de ajuste até que ele percebeu que o que havia aprendido de ruim a respeito de gays não correspondia à realidade. Os outros dois filhos se adaptaram de forma muito tranquila. Temos um diálogo muito aberto entre nós e isso tem facilitado à adaptação.

EOnline: Como você se articula na luta pelo movimento LGBT?
Toni Reis: Antes mesmo de ir para a Europa, quando ainda estudante na UFPR, comecei a me aproximar do então chamado Movimento Homossexual Brasileiro (MHB). Na Europa o movimento LGBT estava muito mais avançado e aprendi muito. Voltei para o Brasil e fundamos o Grupo Dignidade. Já no primeiro estatuto uma das finalidades era organizar os grupos LGBT brasileiros em uma “confederação”. Sentíamos a necessidade de ter uma entidade LGBT nacional representativa que pudesse se articular com as instâncias federais, para que houvesse avanços com os direitos humanos de LGBT. Após um período de articulação em 1993 e 1994, foi fundada em Curitiba a ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Eu fui o primeiro presidente da ABGLT e ocupei o cargo novamente entre 2007 e 2012. Na minha gestão a ABGLT ganhou status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social (ECOSOC) das Nações Unidas, sendo a primeira organização LGBT do hemisfério sul a adquirir esse status. Hoje sou secretário de educação da ABGLT.

EOnline: O que emperra o debate LGBT no Brasil?
Toni Reis: Principalmente o fundamentalismo e o extremismo religioso e seus representantes nas casas legislativas.

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