Entrevista de Toni a Gralha – “Quem tem que sair do armário é a felicidade”

Antônio Luiz Martins dos Reis é um homem determinado. Nascido há 49 anos (completa 50 em 20 de junho do ano que vem) na machista Coronel Vivida, veio com 20 para Curitiba, onde cursou letras e iniciou seu treinamento como militante em tempo integral. Foi morar na Europa e, em Londres, conheceu David Harrad, que trouxe para Curitiba em 1990 e com quem vive até hoje. Os dois se completaram ao adotar o garoto Alison em 2002. São uma família feliz, enfim.

Toni Reis é um pioneiro na defesa dos direitos das minorias. Criou o Grupo Dignidade, em 1992, quando a provinciana Curitiba só via ser desfraldada a bandeira do travesti Gilda. Toni é uma figura pública que orgulha não só a comunidade LGBT, mas a cidadania. Os partidos sempre lhe mandaram olhares sedutores, e agora, pelo jeito, ele decidiu partir pra pesada: filiou-se ao PCdoB, o histórico Partido Comunista do Brasil, uma agremiação bastante democrática, acredita o futuro candidato.

A história de vida de Toni, evidentemente, dá um livro (eis um desafio para os escritores cá da terrinha). Filho de Miguelino Martins dos Reis e de Maria Consceição Muller dos Reis, tem vivos apenas dois de seis irmãos. Viadinho da escola, no interior, construiu seu caminho com determinação. Formou-se e doutorou-se, viveu no exterior, derrubou barreiras em nome da união civil homoafetiva e da adoção por casais de mesmo gênero, peitou Felicianos e Bolsonaros. Pintou e bordou, como se dizia antanho.

Sigam os melhores trechos da conversa de Toni Reis com o editor Leandro Taques*, também autor das fotos.

A Gralha – Quem é o cidadão Toni Reis?

Toni Reis – Eu nasci em Coronel Vivida, fui criado em Pato Branco e Quedas do Iguaçu e vim para Curitiba em 1984. Estudei letras na Federal, militei no movimento estudantil e no movimento partidário. Depois tive a possibilidade de morar quatro anos na Europa, voltei pra cá e formamos o Grupo Dignidade de Direitos Humanos LGBT. Eu sou uma pessoa idealista, mas muito concreta. Gosto de realizar todos os meus sonhos. Um idealista concreto, pragmático, que, no entanto, persegue e gosta de realizar suas utopias.

A Gralha – A partir de que momento você se reconheceu como homossexual?

Toni Reis – Ui!!! A prática, desde que eu me conheço por gente. Cinco anos, três anos, eu sempre percebi que tinha desejo pelo mesmo sexo. O meu pescoço torcia pelo sexo masculino. Mas isso no interior é muito comum, troca-troca, direitinho… Vocês querem que eu responda longamente??? A prática minha começou desde a tenra idade, cinco anos de idade, foi muito precoce. Com os primos e os amiguinhos era troca-troca direto. Mas eu me percebi gay, a identidade gay, aos 14 anos, e eu me lembro, como se fosse hoje, o dia que eu cheguei e falei pra minha mãe. Comecei a sofrer discriminação e foi aí que eu percebi. Porque até então todo mundo fazia e ninguém falava esse nome, que era viado. Naquele tempo, e ainda agora, quando você queria agredir alguém, chamava de viado, de bicha. Mas foi quando eu comecei a ser rejeitado no jogo de futebol. Cheguei e falei para mãe: “Eu quero contar uma coisa para a senhora. Eu sou gay, pecador, doente e sem-vergonha e eu não quero isso pra mim, eu quero me libertar disso, eu quero me curar, não quero mais ser isso e quero sua ajuda.” Minha mãe estava fazendo almoço, cortando cebola e começou a chorar. Não sei se ela chorou por causa da minha homossexualidade ou por causa da cebola. Mas ela confirmou que eu era pecador, doente. Que precisava procurar uma professora e procurar saber o que é isso. A professora me disse que era um problema, que eu precisava procurar um médico, um psicólogo. Então minha mãe me levou para Pato Branco, me levou ao médico. Eu tinha 14 anos.

Aí começou um período da minha vida que eu chamo de “a busca da cura”. O médico urologista, Dr. Peixoto, de Pato Branco, me examinou e disse que eu estava bem de saúde, que poderia ser uma variante de sexualidade. Sugeriu que eu fosse para uma capital, que eu estudasse, fosse alguém na vida, me desenvolvesse. Ao voltar pra casa, por ser muito ligado à Igreja, coisa que ainda hoje eu sou. Sou um cristão nietzscheniano. E aí eu falei com o padre da Paróquia, o padre Sigismundo, e ele me disse: “Iiiiii, meu filho, isso é pecado, se afaste dos sacramentos, não comungue, saia da liderança da juventude porque você é um mau exemplo. Mas faça uma novena para Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, pra se curar, pois ela é a santa dos enfermos. Faça a novena. Se a novena não funcionar e você tiver recaída, você volta pro primeiro dia da novena. Eu tive muitas recaídas. Na época passava uma novela, Pai Herói, e o Toni Ramos, naquele tempo, ele era bonitinho (hoje ele está meio caído). Eu tinha recaída e aquela novena virou quarentena e não me curei.

Deixei a Igreja Católica, me mandaram para a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, onde busquei a cura e não deu certo, depois fui no pai de santo e ele me disse que eu tinha a pomba gira com duas cabeças desgovernadas… Tomei xaropada, tomei leite de égua, xaropada de amendoim… Toda a minha família tentou me “ajudar” a sair disso, mas não saí, aí vim para a capital, estudei, tive a oportunidade de viver na Europa, casei, e foi aí que me identifiquei. E hoje, se tiver cura, não quero me curar, estou muito feliz assim.

A Gralha – Desmentindo cada vez mais o Marco Feliciano, dizendo que não há a cura gay?

Toni Reis - Com certeza, essa questão do Feliciano é um engodo. A pessoa pode ou não assumir, há pessoas que não assumem na sociedade. Conhecemos pessoas no meio político ou profissional que são homossexuais que acabam não se assumindo para elas mesmas. Isso pode acontecer. A pessoa sublimar seus desejos. Eu quero viver intensamente.

Gralha – É nesse momento que você se torna essa liderança?

Toni Reis – Eu sempre fui liderança. Eu lembro que com 12 anos fui coordenador de classe, fui do grêmio estudantil Olavo Bilac, fazia o jornalzinho da escola. Eu sempre tive essa liderança e mesmo – até uma questão psicológica – para superar o preconceito e discriminação, eu usava isso. Se eu não era convidado para jogar bola, eu comprava a bola para ser o primeiro a ser chamado. Eu sempre me utilizei da liderança. Por todo esse sofrimento eu falo isso muito abertamente, de forma muito tranquila. Depois que vim para Curitiba, que comecei a fazer a discussão de gênero na Universidade Federal, fui presidente da Casa do Estudante Universitário. Eu sempre gostei muito de política. Os meus apoiadores sempre me diziam: “Toni, não precisa falar que você é gay. Vamos tentar falar que você não é. “ Mas sempre achei que precisava falar.

E foi na Europa que eu entendi. Chegando a Madrid, participei de grupos LGBT; no Partido Comunista em Milão. na Itália; depois na França, na Inglaterra, fiz parte de várias organizações LGBT. Foi lá que percebi que a questão da homofobia e do preconceito é cultural e se a gente aprende a ser homofóbico, ter a homofobia internalizada, se é cultura isso a gente pode mudar. Quando voltei pra Curitiba, fiquei três meses, cheguei em janeiro de 1992 e em março nós criamos o Grupo Dignidade. E foi muito difícil. A gente fez divulgação e não aparecia ninguém, só eu e meu companheiro que fazia reunião lá em casa. Com pauta, ata e ficávamos discutindo. Ai apareceu uma pessoa e ficamos muito felizes. Em junho, apareceram umas dez pessoas. Mas ninguém queria colocar o nome. Tivemos que emprestar RG e CPF para formar o Grupo Dignidade. Ninguém queria aparecer. Aí coloquei a cara para bater. E começamos.. No nosso estatuto tinha a questão de formarmos uma associação brasileira que formamos em 1995 e eu tinha, desde 1983, mantido correspondência com Luiz Mott, porque eu tinha muita curiosidade, queria saber, queria ler sobre o assunto. Eu li muito sobre o assunto: gay, lésbica…

Naquela época era homossexual, não se falava LGBT. Naquela época, em 1984, não se falava muito em homossexualismo. Foi aí que eu me tornei a liderança, a partir de formar um grupo, me envolver, trabalhar coletivamente. E aí essa liderança veio, se manifestou, nunca foi planejada e sim, consequência. Hoje eu falo e me sinto muito bem, encontro pessoas que me dizem: “Toni você me ajudou, quando eu li a sua entrevista na Veja em 1993; quando você foi no Serginho Groismann, em 1995.” Creio que a liderança, no campo LGBT, veio a partir da minha história de vida.

Gralha – Quais os maiores obstáculos/dificuldades para o debate LGBT no Brasil?

Toni Reis – Primeiro eu acho que conseguimos muito… de quem era pecador, doente e criminoso, a gente chegar no Supremo Tribunal Federal e unanimemente conseguir o casamento através da união estável no STF e depois a resolução do Conselho Nacional de Justiça. Já conquistamos muitas coisas, mas ainda temos muitos desafios. O primeiro é a aprovação da criminalização da homofobia. Isso é fundamental.

Todas a minorias têm uma lei. A Maria da Penha para as mulheres, a lei do racismo, tem a lei para pessoas deficientes, lei pro cigano, mas não tem nenhuma lei que criminalize a homofobia. Outro desafio é a gente superar esse preconceito que gera a discriminação e a violência. Em 1993 nós tínhamos somente 7% de apoio da população; hoje já são 52% de apoio da população. A sociedade mudou. E ainda temos um grande entrave que é o componente religioso, o fundamentalismo religioso, principalmente de certas religiões evangélicas fundamentalistas. Isso é um desafio para a gente.

Gralha – E a questão religiosa, como conciliar religião e LGBT?

Toni Reis – Eu lido muito bem com isso. Quando falo para um grupo heterogêneo, sempre começo falando do princípio da igualdade, tanto na declaração universal dos direitos humanos que diz que todas as pessoas têm igualdade de direitos e a Constituição Federal, que diz que todos somos iguais sem discriminação de qualquer natureza. Acho que a partir disso… esse é o princípio básico e que a gente precisa ser respeitado. Nunca pedi em algum curso ou palestra que as pessoas me aceitem, me abracem, me beijem, me levem pra casa para jantar, mas eu quero que me respeitem. Isso eu exijo. A aceitação é de coração, mas o respeito é obrigação de qualquer cidadão. É o outro, que pode fazer o que quiser da vida dele e eu não aceitar, mas o respeito é importante. E eu nunca tive problemas, eu dou cursos para profissionais de educação, profissionais de saúde e nunca tive um problema. A não ser uma vez em uma escola onde havia um pastor e ele queria discutir levíticos. Aí parei e falei: “O sr. quer discutir  a bíblia, tudo bem, eu também sou cristão. Eu vi que ali na esquina tem uma igreja e a gente pode ir para lá, depois do curso e discutimos.” Mas aí é um dogma e dogma é outra questão, que você não tem que ficar dizendo sim ou não, você respeita ou não. Eu nunca discuto a partir de um livro sagrado. Eu discuto a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição Federal. Nunca tive problema.

Gralha – A religião também estabelece o padrão da heteronormatividade na nossa sociedade. A discussão LGBT tem o objetivo de superar esse padrão heteronormativo ou tem o objetivo de conviver harmoniosamente com esse padrão?

Toni Reis – Precisamos perceber que as pessoas vejam cada indivíduo com uma orientação sexual. Se temos dois milhões de pessoas em Curitiba, nove milhões no Paraná e 200 milhões no Brasil, nós temos 200 milhões de orientações sexuais diferentes. Cada um tem uma diferença. Não podemos ser binários. Eu seu hetero, hetero, hetero ou sou homo, homo, homo. Enfim, cada um tem a sua sexualidade e a gente precisa trabalhar isso. Precisamos questionar a heteronormatividade, mostrar que existem outros tipos além da heteronormatividade. Vejo que não podemos ser oito ou 80. Entre oito e 80 existem 72 possibilidades. Creio que a sexualidade é um oceano. Muitas pessoas fazem dela um aquário, outras um lago, outras uma cachoeira.

Existem pessoas que são restritas na sexualidade. Tenho amigos e amigas que são papai e mamãe, outros têm relações diferentes, abertas, fechadas. Tem pessoas que casam, são infelizes, mas, por uma questão de norma, continuam casados. Temos que respeitar. É o livre-arbítrio. Nesse sentido a heteronormatividade tem que ser questionada, mas precisa ser respeitada. Se a pessoa tem um padrão rígido, tem que respeitar, desde que me respeite… E a gente tem que pregar, não podemos querer destruir tudo e reconstruir uma nova concepção. E temos conseguido avançar, ter apoio de alguns setores da sociedade, inclusive setores mais conservadores.

Gralha – Qual sua opinião a respeito dos governos Gustavo Fruet, Beto Richa e Dilma Rousseff?

Toni Reis – Enquanto liderança LGBT, conversamos com os três. Cada um com a sua forma. Por exemplo, nós estivemos com o governo Dilma. Sabemos, é um governo de composição. Lá tem 60% de pessoas que são mais abertas, mas tem 40% que são muito conservadores. No governo Dilma, inclusive, tivemos retrocessos, se compararmos com o governo Lula. Que agora estamos recuperando, “inclusive” dialogando. As manifestações de junho foram bacanas. Nós fomos o segundo movimento a se recebido pela Dilma. Primeiro a Juventude, depois o LGBT. E questionamos a suspenção do material Escola Sem Homofobia, suspensão da campanha para a nossa comunidade a questão HIV/AIDS e a postura. Mas ainda temos um diálogo bastante tranquilo.

Com o Governo Beto Richa, nós nunca tivemos acesso a ele, nós temos alguns secretários mais abertos, a Secretaria de Justiça, a Secretaria de Educação, da Saúde, temos um diálogo bastante tranquilo. A gente precisa ter uma política de estado e não de governo. Estamos avançando no Paraná, num passo muito lento, mas estamos avançando.

Com o Gustavo Fruet, ele assinou compromisso, eu mesmo fiz campanha para ele no segundo turno, vejo que é uma pessoa extremamente aberta. Tivemos uma audiência com ele e estamos aguardando as definições. Eu espero que seja um governo avançado na nossa questão. Ele assinou e inclusive fez uma observação no termo de compromisso que está guardado no cofre da instituição que se ele não cumprir está documentado para cobrar dele. Ele disse: “Eu vou defender a Constituição, que diz que não deve haver discriminação de qualquer natureza.” Já tivemos essa sinalização.

Nós queremos ter aqui em Curitiba o tripé da cidadania, como no âmbito nacional, que é ter o Conselho Municipal LGBT, um Plano e uma Coordenadoria, da mesma forma no estado, queremos um Conselho, um Plano e uma Coordenadoria. Nacionalmente tivemos com o Lula e a Dilma continuou. Creio que na questão LGBT, com os três governos estamos avançando, claro que se compararmos os governos…. A Dilma superou o Lula em algumas questões sociais como a saúde, a educação. No Beto Richa, eu não vejo grandes avanços nas questões sociais e com o Gustavo creio que é cedo para fazermos alguma análise, mas eu gosto da forma do governo e dele em ser transparente. Abriu a caixa preta do orçamento, já senti muitas melhoras na questão da saúde, sou usuário, tenho a carteirinha do SUS e já mandei um elogio para o secretário da Saúde. Está melhorando.

Gralha – Quando você e David começaram a vida em comum em Curitiba, residiam na rua Cruz Machado, na boca do lixo, e eram vistos como alienígenas – mas compreendidos, ao que me consta. O que mudou de lá para cá, materialmente, na vida de vocês? Vocês são reconhecidos pelas pessoas como um casal?

Toni Reis – Continuo na Cruz Machado, na boca do lixo. Quando chegamos, pagamos 10 mil dólares no apartamento, e continuamos morando lá no mesmo apartamentinho e não saio de lá, vou morrer lá. Adoro o apartamentinho, nunca tive um problema e ali realmente os bares são boca-quente, começa 18 horas e termina… é 24 horas. Tem prostituição, drogas, música e nunca tive problemas. Fecho minha veneziana e durmo tranquilamente. Todos os comerciantes me conhecem, conhecem meu marido David, meu filho, conhecem meus dois cachorrinhos, o Victor Hugo e a Honey Panny, conversam com os cachorrinhos, dão comida pros cachorrinhos. É uma convivência, eu nunca fui discriminado na minha rua. Em Curitiba, em geral na rua, muito pelo contrário, eu já fui discriminado por ser do Coxa. “Ô viadão!!!” Por eu estar com a camisa do Coxa. Mas não por ser homossexual. Outro dia estava de bicicleta na ciclovia com o Alison (filho) e o David e alguém passou e gritou “Oi Toni.” E o outro ciclista, que vinha atrás, achou que eu tinha sido xingado e o cara já saiu em minha defesa: “Não ligue, tem gente que discrimina e tal.” Me defendendo. Então, muito pelo contrário, nunca teve problema e eu frequento todas as classes sociais, alta, média, baixa. Evangélicos e católicos me convidam para festas.

Creio que eu fui integrado à cultura curitibana de forma muito tranquila. Eu gosto de estar convivendo bem com todo mundo. Mas não deixo de questionar. Se alguém falar gay é feio, eu vou lá e questiono. Tenho um ofício padrão, já mando para o Ministério Público, já mando registrar o boletim de ocorrência. Fomos integrados, mas ainda existem questionamentos, não da minha pessoa, mas pessoas que são discriminados no trabalho, na escola, na igreja, em todos os lugares. Mas eu enquanto pessoa nunca tive problema ou sofri alguma violência. Existem algumas coisas nas redes sociais. Inventam perfis fake meu Facebook, tentam prejudicar minha imagem, mas eu sou tranquilo, eu relevo.

Gralha – Vocês adotaram um filho. Gostaria que nos contasse como foi esse processo e quais as dificuldades no Brasil para a adoção de crianças por casais compostos por pessoas do mesmo sexo.

Toni Reis – O David é inglês e eu sou indígena e alemão. E o meu lado alemão é muito certinho. Tudo que a gente faz é com muito planejamento. Em 1990, quando a gente casou, pensamos em adotar, mas aí pensamos, será que a criança não vai sofrer?  Pensamos, pensamos e em 2002 decidimos, vamos adotar uma criança. Aí entramos na Vara da Infância para adoção. Tivemos uma receptividade muito boa com o psicólogo do serviço social, aí fizemos todos os passos, fizemos os cursos, visitaram nossa casa, falaram com os padrinhos, as madrinhas, a família estendida… não tivemos problemas.

O juiz na primeira instância falou: pode adotar, mas só pode ser menina e maior de dez anos. Achamos a decisão discriminatória. Recorremos ao Tribunal de Justiça do Paraná e eles falaram, pode adotar de qualquer idade. Uma procuradora do Ministério Público questionou. Quis discutir o mérito. Aí fomos para o Superior Tribunal de Justiça. Também foi questionado pelo Ministério Público e aí fomos para o Supremo Tribunal Federal e, numa decisão monocrática, o ministro Marco Aurélio sentenciou: “Pode adotar.”

Quando você vai adotar, pode colocar as características. Nós não escolhemos nada, fomos conhecer o primeiro, o Alison, e no primeiro dia ele já nos conquistou. O Alison veio com um xaveco dizendo que queria ser médico, ensinou a gente como comer à mesa, como bom carioca conquistou a gente. Garoto inteligente, quer ser médico, bem educado… adotamos. Agora nem quer mais saber de ser médico, quer ser bombeiro, artista de rua. Foi um processo super legal, mas há dificuldade. Também achamos que na escola seria complicado, mas acompanhamos. Todo mês fazemos uma visita, às vezes semanalmente, porque o Alison é muito questionador, bagunceiro e precisamos ir lá, conversar com ele e tal.

Percebemos que toda criança é discriminada por algum motivo – por ser magra, por ser gorda, por ser baixinha, por ser negra ou branca demais, mas ele não tem sentido esse preconceito. Ele está se adaptando bem a Curitiba, já está falando leite quente, dor de dente, super integrado. As vezes ele fala: “Tenho dois pais. Eles são chatos, mas são legais.”

Gralha – Você sempre foi assediado por partidos para sair candidato a deputado, estadual ou federal. Parece que agora vai. Fala-se no PC do B. Por que o PC do B? Como se deu essa decisão?

Toni Reis – Eu sempre fui do campo popular democrático. Eu tive uma passagem pelo Partido dos Trabalhadores e aí, por uma questão boba, de uma postura que eu tive no Conselho Municipal de Saúde, me pegaram no pé porque eu fiz uma votação diferente do pessoa do sindicato e me questionaram e eu fui para o PSB. Depois saí e fiquei dez anos sem partido. Cansei, não quero mais saber de política partidária. Fui fazer minha especialização, meu mestrado e doutorado. Numa conversa que tivemos com o presidente Lula, ele me incentivou a ser candidato por essa forma legal de você defender a laicidade do estado, o povo LGBT, direitos humanos, educação. Aí me animei. Recebi convites de cinco partidos diferentes. Do próprio PT, do PSD, do PP, do PHS e do PC do B. Fomos conversando com as pessoas e partidos e a proposta do PC do B foi muito bacana.

Cumpri um certo papel no movimento social e agora me disponibilizei para a luta partidária. É no parlamento que vai ser a questão das leis e aceitei o PC do B e estamos muito bem. É o partido mais antigo do Brasil, é um partido que sofreu todos os preconceitos e eu até brinco quando me perguntam por que o PC do B. É o partido que mais sofre preconceito. Ou da direita ou da esquerda. A direita fala que come criancinha e a esquerda que fala que é muito adesista. Mas é um partido que esteve 65 anos na clandestinidade e sobreviveu.

Eles têm uma base teórica de princípios muito rígida e a democracia interna é muito bacana. Eu mesmo me surpreendi. Eu não achava que era assim. Tinha lá minhas dúvidas… Quando falavam de centralismo democrático. Quero ter liberdade de opinião. Lá tem liberdade de opinião, mas decidiu, é a decisão partidária. E tem os fóruns para se fazer esses questionamentos. E eu estou muito bem por lá. E estar discutindo essa possibilidade de uma candidatura é importante. O debate de todos os grupos sociais é bacana, importante.

Gralha – Quando você coloca essa possibilidade de pré-candidatura a deputado federal, qual seria seu espelho para atuação parlamentar? Seria o Jean Wyllys, do PSOL?

Toni Reis – Não. Gosto muito do Jean Wyllys, é meu amigo, tem uma postura muito atuante, inteligente. Gosto de ouvi-lo, mas eu me espelho muito no Rosinha. O Rosinha é o candidato em quem votei em muitas eleições, sempre votei no Rosinha. Inclusive um dos motivos da minha candidatura é que ele não vai ser candidato e eu não vou ter em quem votar. O Chico Alencar, do PSOL, gosto muito. Adoro a Marta Suplicy, gosto da postura aguerrida da Marta, questionando o machismo. E o próprio Lula. O Lula pra mim é o meu guru político. Eu gosto da forma conciliadora, de escutar, de ponderar, de chamar, é uma pessoa que eu tenho como referência.

Gralha – O que você pensa sobre as mais recentes decisões do STF a respeito de união homoafetiva e os desafios da criminalização da homofobia através do PLC122 no campo legal que organiza a luta LGBT para o próximo período?

Toni Reis – Nós temos um Congresso muito conservador. De 513 parlamentares, temos em torno de 150 progressistas. Percebemos que pela via parlamentar nós não conseguiríamos a união estável, o casamento. Aí fomos verificando e aprendendo com os outros. Nos espelhamos na decisão da Colômbia, que foi através da Suprema Corte. Questionamos a Constituição Federal em seus artigos que falam que todos são iguais perante a lei sem discriminação de qualquer natureza e a partir deste princípio, trouxemos o pessoal da Colômbia, ficamos três dias em Brasília, fazendo curso e entendendo o mecanismo. Aí o governador Sérgio Cabral ingressou com uma ADPF (N. R.: arguição por descumprimento de preceito fundamental – orientada a reparar lesão a preceito fundamental causada por ato do poder público).

Logo fizemos uma articulação com o Governo Federal para fazer uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade, criada para controlar a constitucionalidade de leis e atos normativos) e começamos a fazer um trabalho de visita. Eu e a equipe, com a OAB, visitamos todos os ministros, levamos as demandas, os memoriais e conseguimos, de forma unânime e com o apoio do Governo Lula. Teve parecer favorável da Advocacia Geral da União, da Procuradoria Geral da República, dos ministros. Foi muito bacana a forma como fizemos. E um dia antes, em maio de 2011, achávamos que o Ministro Toffoli não poderia votar porque ele foi o relator e tinha dado o parecer, então estava impedido.

Dos dez votos, achávamos que teríamos sete a favor e três contra. E para a grata surpresa, fomos vendo os votos e fomos nos animando. Tivemos sete votos favoráveis à união e o casamento e três votos para a não estável, com observação. Foi um trabalho bem pensado, bem estruturado. É fundamental qualquer movimento, qualquer pessoa se organizar. Tem que ter argumento e subsídio. Na questão da criminalização da homofobia estamos indo bem. Temos apoio de 70% da população. Mas temos um grupo de fundamentalistas evangélicos que acham que queremos prender pastores e padres, e não é isso. O que a gente não quer é que a pessoa fale que a homossexualidade é pecado. Pecado por pecado é você soltar cheque frio, ler o signo, buzinar na frente do hospital, mas uma pessoa espancar no trabalho, numa escola, é isso que queremos que seja criminalizado. Isso é importante.

A criminalização (da homofobia) tem caráter educativo. Um exemplo, a questão do racismo. Ela melhorou, a gente sabe, a lei não vai acabar com o racismo, mas melhorou bastante, diminuiu. Ele fica latente, por isso a gente precisa estar vigilante. Por isso precisamos de uma lei para criminalizar a homofobia, com caráter educativo, e o desafio é superar o fundamentalismo desse grupo que acha a gente vai tolher a liberdade de expressão. Eu sou totalmente a favor da liberdade de expressão desde que não fira a dignidade humana. Eu não posso sair falando coisas horrorosas das mulheres, dos negros… Não posso falar e ferir a dignidade humana. Esse é um ponto importante. Inclusive já temos jurisprudência no Supremo Tribunal Federal.

Gralha – O que dizer para aqueles que tacham os ativistas LGBT como os que querem instaurar a ditadura gay no Brasil?

Toni Reis – Uma piada. Que ditadura gay… Eu quero mais que as pessoas sejam felizes. Tem que ser feliz da sua forma, do seu jeito. Não queremos impor valores. Até brinco, já temos um monte de concorrência, não queremos fazer apologia da homossexualidade. Isso é uma tremenda babaquice, é senso comum. Uma besteira. Eu até brinco com o Silas Malafaia, o Feliciano e o Bolsanaro que são meus fregueses lá no Congresso. Nos debates eu sempre falava pra eles: “Se e quando for aprovado o casamento gay, vocês não precisam casar.” O Bolsanaro e o Feliciano não serão obrigados… e isso que aconteceu. Faz dois anos que aprovamos o casamento gay e eu não conheço um heterossexual que foi casar com um outro heterossexual…. Não vai. A lei não modifica o comportamento.

Não conheço um heterossexual que perdeu um direito. De norte a sul, leste a oeste, os 200 milhões de brasileiros, não tem um que disse eu perdi esse direito, mas agora, 10% ganharam esse direito. Se as pessoas não querem exercer esse direito, são outros quinhentos. Inclusive no movimento gay tem pessoas que não querem casar, querem ficar livres… cada um é cada um…

Gralha – Pra fechar. Quem precisa sair do armário?

Toni Reis – Sair do armário é a pessoa se assumir como ela é. Se eu sou comunista sou comunista, se eu sou homossexual, homossexual; se sou heterossexual, heterossexual. Acho que a pessoa tem que ser feliz. A finalidade da vida, segundo Aristóteles, é ser feliz. A gente tem que sair do armário e ser feliz, viver a vida com as nossas escolhas, que serão criticadas pela mãe, pelo pai, pelos irmãos, pela sociedade, mas… quase falei um palavrão…. A gente tem que ser feliz e viver de forma tranquila com essas pessoas. Tem algumas coisas que são escolhas e algumas que precisam ser aceitas. Nesse sentido quem tem que sair do armário é a felicidade.

* A cientista social Amanda Jaqueline participou da entrevista, concedida na sede do Grupo Dignidade, em Curitiba.

FONTE:  http://www.agralha.com.br/pensata-inner.php?id=847&token=f4552671f8909587cf485ea990207f3b

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